Depois de quase um ano, resolvi novamente procurar por St. Louis Slim no Google. Ano passado não tive tanta sorte e achei apenas uma página quebrada no MySpace e um “breve aqui” site.
St. Louis Slim me deu a oportunidade de tocar na Bourboun Street, em New Orleans e nunca poderei agradecer o bastante. Foi um momento extremamente importante para mim e um dos meus últimos grandes sonhos realizados.
Não foi um choque encontrar um site novo trazendo o lançamento do seu primeiro álbum ou uma entrevista seguida de shows em um podcast sobre música. O estranho mesmo foi ouvir ele falar de maneira descontraída durante a entrevista e entre as músicas do show. A impressão que tive do bluesmen durante as noites que estive no bar onde ele tocava me pintaram alguém bem diferente. St. Louis seguia um ritual de preparar seu equipamento, tocar uma ou duas músicas como teste de som e ir sentar no canto mais distante do balcão bebendo um shot de algum destilado que nunca tiver curiosidade de descobrir qual era. Falava pouco, era extremamente reservado e talvez até um pouco desconfiado de tudo e de todos. Não lembro de nenhum grande discurso entre as músicas… apenas uma apresentação sobre alguma canção que não passava de uma biografia básica - “essa canção se chama tal e foi composta por tal”.
Só posso considerar que eram momentos difíceis para ele por alguma razão e agora as coisas, mesmo depois do Katrina, melhoraram para ele. Desejo todo o melhor para ele e sempre meu sincero agradecimento. :)
Abaixo, St. Louis tocando “The World Gone Wrong“. A última música que toquei com ele naquela noite de 2004. O palco desse local é extremamente parecido com o do Funky Pirate. A única diferença talvez seja a falta do terno cinza que ele costumava sempre usar.
The World Gone Wrong
by Mississippi Sheiks
Strange things have happened
That never before
My baby told me
I would have to go
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey, because the world’s gone wrong
Feel bad this mornin’
Ain’t got no home
No use a-worryin’
‘Cause the world gone wrong
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey, because the world’s gone wrong
I told you, baby
Right to your head
If I did leave ya, I would
Have to kill you dead
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey, because the world’s gone wrong
I tried to be lovin’
And treat you mine
But it seems that now, right
Got no love in mind
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey, because the world’s gone wrong
If you have a woman
And she don’t be kind
Pray to the good Lord, to
Get her off your mind
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey, because the world’s gone wrong
Then, when you’ve been good, now
Can’t do no more
Just tell her kindly
There is the front door
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey, because the world’s gone wrong
Pack up my suitcase
Give me my hat
No use to ask me, babe because
I’ll never be back
I can’t be good no more
Once like I did before
I can’t be good, baby
Honey because the world’s gone wrong.
Chove fino lá fora, mas poderia ser qualquer coisa na verdade. Qualquer coisinha já é suficiente para abalar meu espírito empreendedor nesses dias. Estou aqui ao lado de um Italiano, na sala de refeições do albergue. O nome dele é Stéfano e no momento, assim como eu, ele está escrevendo algo.
Stéfano está viajando o mundo sem se utilizar de serviços de transporte aéreo e conta tudo o que acontece em uma homepage que esqueci o endereço. Mais tarde procuro e passo para vocês.
Minha barriga começou a doer novamente e parece que tudo que como me faz um pouco mal. Ainda não sei o porquê disso acontecer, mas meu metabolismo está bem acelerado nesses dias. Tudo o que bebo ou como, vai para o banheiro em cinco minutos. Ontem a noite, no Funky Pirate, fui no banheiro todas as vezes que tomava um drinque. Começo a ficar com vergonha de voltar lá.
Acho que o staff já reparou nas minhas incursões. Se fosse no Brasil, além de mijar toda hora, cagaria para o que o povo do bar pensa. Mas não estou em casa e tampouco no Kansas. Por mais que eu não goste, ainda não sei as regras ou o peso das coisas por aqui.
Estou enrolando um pouco aqui, mas vou parar com esses relatos bestas e vou dizer o que realmente aconteceu de interessante ontem.
Eu estava na área comum do albergue quando engajei uma conversa com um novaiorquino que me pediu para que eu tocasse algo na gaita para ele. Depois de tocar, ele disse que poderia ganhar meu almoço tocando nas ruas.
Agradeci o elogio e a dica, mas não sabendo o quanto daquilo poderia ser verdade, decidi levar as gaitas comigo ao French Quarter (onde rola o bafafá), só por desencargo de consciência.
Começava a me sentir menos mal do estômago e então fui andar um pouco no FQ com a minha mochilinha e tals… a idéia de tocar nas ruas não é tão ruim se eu tivesse um bom violonista e vocalista ao meu lado. Não posso pensar nisso logo de cara também. Primeiro designer gráfico, depois bares. Se ‘bares’ não der certo, rua!
Confesso que está sendo muito difícil para mim entrar em lugares e pedir emprego. Vários lugares que eu vejo por aqui são restaurantes que eu provavelmente me sentiria intimidado como freguês.
Nesse dia só preenchi uma ficha num barzinho modesto que realmente não precisava de mais funcionários. Bem… É um começo.
Mais tarde, no Funky Pirate (esse barzinho amarelo aí na foto), pedi para que St. Louis Slim me ouvisse tocar e que criticasse minhas habilidades para saber se eu poderia tocar nas ruas. Ali mesmo no bar, toquei Blowin”n’Jumpin’ e ele disse algo como:
- Tá… legal… maas você pode tocar uma lenta?
E eu toquei. Ele disse:
- Ceeeerto… você gostaria de tocar uma ou duas músicas comigo hoje? Seria um bom teste final.
- Claro! Seria Ótimo! Deixa eu só beber mais um pouco, ok?
Quase no final do show, ele me chamou e eu subi para tocar. Tocamos uma e ele gostou, então fiquei para outra. Aí, mais acostumado pude me soltar mais na base e ele gostou bastante. Me abriu um sorriso e disse:
- Muito bom, cara. Toca mais uma?
- Ca-la-ro.
Toquei ao todo quatro músicas com ele e encerramos com ‘World Gone Wrong’ (não em lembro de quem é, mas o Bob Dylan fez uma versão disso num disco de mesmo nome).
O bar estava bem vazio, mas não importa. Foi minha estréia na Bourbon Street e logo no segundo dia. Nada mal, acho.
Agora só me falta um emprego.
Segundos de Sabedoria: Americano não sabe fazer pão, mas mesmo assim vende bisnaga de pão francês na maior cara de pau. Já dá pra suspeitar pelo fato de não existir padarias aqui. Ora! Se não tem padaria, onde posso comprar um bom pão? Resposta: Não posso.
Decidi há tempos acreditar na humanidade e passar o resto da vida me decepcionando. Minha fé inabalável de que cada pessoa é um ser único e especial será o motivo do meu suicídio. Preciso me livrar de todas essas frustrações.