Rosas, sexta à noite

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Eu passo os olhos pelos arranjos e evito de olhar a vitrine, onde há coisas lindas que meu dinheiro infelizmente não pode comprar. É noite e essa loja deveria estar fechada, acho. Chove e está tudo vazio e escuro. Além de mim e a atendente, só ouço o som de alguém cortando ramos ou galhos com uma faca na sala do fundo.
- Há cartões em branco em cima da mesa.
- Dessa mesa?
Ela aponta por trás do balcão para um outro balcão na lateral da loja.
- Ah!
Eu olho os envelopes em branco com cartões em branco. Acho que pego um e o solto onde deixei. Rejeito. Pequeno demais. Não cabe. Precisaria de vários. Uma palavra para cada cartão, um envelope para cada cartão e depois de escrever gastaria saliva sem dizer nada mesmo assim. Depois poderíamos jogar para o alto e montar significados diversos como em uma proposta de McLuhan onde cada idéia é independente de uma ordem. Pelo menos foi o que ouvi dizer de sua boca. Parecia verdade.
Volto ao balcão e giro o carrossel até encontrar um cartão maior. Um com um saxofone porque… bem… porque é um saxofone e eu gosto de saxofones em cartões. Há espaço para escrever, mas agora só consigo pensar em tocar um blues.
- Você pode preencher essa fichinha?
- Claro. ‘Endereço…’ essas rosas vão abrir muito amanhã?
- Bastante. A loja fica fechada e sem quase ventilação. No calor elas abrem todas que nem aquelas ali.
Ela aponta e vejo como é sério seu rosto e que apesar da maquiagem não possui cor.
- Hummm. Pena. Queria elas um pouco mais fechadas. Acho mais bonito assim.
- Mas vão abrir. Amanhã de tarde vão estar todas abertas.
- ‘Telefone…’ vocês podem entregar de manhã?
- Sim. Vou deixar um aviso pra menina que trabalha de manhã.
- Legal. ‘Nome…’ vou colocar o meu nome. Quero que entreguem as flores para mim. É aniversário dela e ela vai estar lá de manhã. Ouvi dizer que mulheres gostam de receber flores.
- Sim. Pena que certos donos de floriculturas pensem que só porque uma mulher vê flores o dia inteiro, não precisa, quer ou merece receber flores também.
O som vindo da sala ao fundo cessa.
- … eu escreverei o cartão em casa… Boa noite.
A resposta é o som de uma porta se trancando devagar atrás de mim. Ainda estou carregando uma sacola plástica com um terço de sanduíche caro e dois potes de iogurte natural. Continua chovendo fino. As rosas no dia seguinte não abririam tanto. Nem poderiam.

