Poker Cap. 2 - Sorte e Azar
Certa vez testemunhei um jogador de WAR ter seus exércitos quase totalmente dizimados e ‘ilhados’ em um território asiático. Depois disso ele começou uma arrancada feroz nos dados e ganhou a partida. Depois de ganhar a partida, ele anunciou que queria conquistar todos os territórios do mapa e os jogadores aceitaram o desafio. Depois disso… bem, vamos dizer que desde 2002 eu nunca mais joguei WAR.
Enquanto jogos de tabuleiro como damas e xadrez são puramente estratégicos e outros como roleta e bingo funcionam completamente graças ao acaso, existem jogos que combinam os dois aspectos com diferentes medidas: WAR e poker são dois exemplos. A diferença desses dois é que no poker você depende muito menos da sorte ou azar e muito mais da estratégia para vencer uma partida. Duvida?
Eis minha primeira defesa:
O caso de Annette Obrestad, uma norueguesa de 18 anos que ano passado ganhou um torneio online com 180 participantes. O que você não sabe e o que os outros competidores não sabiam até aquele momento é que o jogo de Annette estava sendo monitorado e fiscalizado em prol de uma teoria escalafobética. Antes de aceitar participar desse experimento, Annette olhou pela primeira vez suas cartas durante a primeira rodada e depois disso jogou às cegas. Isso mesmo. Ela ganhou 180 competidores sem olhar as cartas.
Annette ganhou também em agosto passado um torneio online, faturando $500.000 e conseguiu chegar na mesa final do World Championship Online Poker. Não satisfeita, entrou no seu primeiro torneio ao vivo, o World Series Of Poker Europe e levou os $2 milhões do primeiro lugar. Pura sorte, não é?
“Isso parece ter sido a pá de cal na idéia de associar o poker a um jogo de azar” declarou o editor da CardPlayer Brasil, Bruno Nóbrega de Souza. Eu adoraria concordar, mas para quem não conhece o jogo ou está acostumado com o straight poker (mais famoso e jogado com cinco cartas na mão) isso ainda parece improvável. Por isso me obrigo a continuar minha segunda defesa:
Ao contrário do que alguns pensam poker, e principalmente Texas Hold’Em, não é um par ou ímpar ou apostar um lado de uma moeda. O acaso existe sim e é um dos fatores do jogo, mas a sorte ou o azar não pode ser culpada pelas perdas e ganhos a longo prazo. Eis o cerne da questão: Quanto mais você joga, menor é a influência do acaso nos seus resultados. E isso acontece por uma série de razões:
1- Nem sempre suas cartas serão as melhores da mesa. É necessário então manter-se no jogo por mais tempo para que elas cheguem. Alguns jogadores jogam mais mãos do que outros, mas o que importa aqui é como jogar sua mão da maneira mais correta e não estar presente em todas as mãos. Mesmo o jogador mais maníaco deixa de jogar uma rodada ou outra.
2- Cálculo de porcentagens faz com que você possa desenvolver a habilidade de extrair mais dinheiro quando ganhar uma rodada e perder menos quando as coisas não vão do jeito que você gostaria.
3- O acaso existe para todos de maneira exatamente igual. Um jogador supersticioso em qualquer nível (”Perdi 20 rodadas, então ‘ESSA’ precisa ser minha vez de ganhar!“) é um jogador sem dinheiro. Ninguém ‘merece’ ganhar mais do que o outro só porque acredita nisso.
A última vez que participei de um jogo caseiro, me vi com dois problemas irritantes: recebi pouquíssimas mãos decentes e o jogo teve a partida teve duração de apenas duas horas (o que pode ser comparado a 15min de uma partida de futebol). Não havia tempo para desenvolver melhor meu jogo ou esperar mãos melhores. Decidi que precisava então sobreviver e durante toda a partida ganhei apenas duas vezes e as das com mãos medíocres. No entanto consegui terminar sem perdas e ainda com um ganho irrisório. Um dos jogadores (e estreante na mesa) foi o grande campeão do dia e regojizou-se, mesmo jogando de maneira medíocre. Acontece. Joguei o melhor poker que pude e mesmo tendo azar e pouco tempo para revidar e não tive prejuízo financeiro. Fiquei satisfeito comigo e ele ficou satisfeitíssimo com ele. Melhor ainda.
Como o acaso é um fator, existe sempre a probabilidade de alguém não receber cartas boas ou ser vencido em 999.999 mãos em seqüência. A probabilidade no entanto é baixíssima e mesmo que um excelente jogador tenha uma “maré de azar”, ele deverá fazer jus à sua excelência e ter guardado parte dos seus lucros para cobrir esse período negro que é algo COMUM e conhecido entre profissionais. Por serem profissionais, isso nunca os impede de continuar ganhando cada vez mais e perdendo cada vez menos independente do acaso.
Bankroll
Bankroll é a sua conta especial que representa a quantia de dinheiro disponível que você tem para apostar. Quando se começa a jogar a dinheiro, é MUITO recomendável que você crie uma espécie caixa separado e indisponível para qualquer transação que não envolva cartas, fichas e feltro verde.
É o gerenciamento desse dinheiro que indicará o quanto você pode apostar em uma partida, quando você poderá aumentar o limite de apostas do seu jogo (é necessário encontrar jogadores com a mesma disposição monetária que a sua) e o quanto você tem ou precisa guardar para as épocas de seca.
Administrar seu bankroll é uma habilidade tão importante quanto calcular as porcentagens no jogo ou ler seu adversário.

