O Gato No Tom Jobim
Paradoxo de Shrödinger
Coloquemos dentro de uma caixa um gato (1), uma porção de material radioativo (2) e um detector de radiação (3). O aparato é montado de forma que, quando uma partícula de radiação é detectada, um mecanismo libera um gás venenoso letal (4). Após colocarmos tudo na caixa, fechamos e esperamos um pouco.
Após uma hora, a probabilidade de o material ter emitido uma partícula radioativa (decaimento) é de 50%. Se o decaimento ocorreu, o detector foi acionado, expeliu o veneno, e o gato morreu. Se isso não ocorreu, o gato sobreviveu à primeira hora. Em outras palavras: após uma hora, o gato pode estar vivo OU morto.
Acontece que a sorte do gato depende do comportamento das partículas microscópicas, que é explicado pela teoria da Mecânica Quântica. É uma teoria altamente eficiente, mas possui algumas coisas estranhas. Segundo ela, um átomo pode estar no estado decaído E não decaído ao mesmo tempo. Se isso é verdade, porém, o gato de Schrödinger poderia estar morto E vivo ao mesmo tempo.
Schrödinger propôs esse paradoxo para explicar que havia um problema com a interpretação da Mecânica Quântica, pois dessa forma, podemos ter mais de uma resposta correta para um problema que logicamente só poderia ter uma resposta. Essa questão está em aberto até hoje.
Alexandre Nix
* CENÁRIO
Aeroporto. Guichê de companhia Aérea.
* PERSONAGENS
Erwin Shrödinger - Um senhor carregando uma caixa grande no braço esquerdo. Em cima da caixa há papéis de embarque. Na mão direita carrega uma mala de viagem. Ele tem uma testa ampla, cabelos escuros penteados para trás, usa óculos de aros redondos e traja um terno com gravata borboleta. Estilo anos 30 ou 40. Quando fala, nota-se seu sotaque austríaco.
Atendente - Atrás do balcão há a atendente da companhia aérea. Ela veste o uniforme da companhia, o que lhe dá uma aparência mais infantil devido à estética bandeirante do traje. Ela é naturalmente insegura, mas atenciosa em seu trabalho.
Chefe de Segurança - Homem com um porte físico mediano, trajando uniforme de segurança com algemas na cinbtura e um walkie-talkie na mão. Tem um olhar que transparece pouca cultura.
* CENA ÚNICA
O homem se aproxima do balcão e a atendente o ajuda, pegando seus papéis de embarque.
Atendente - Deixe-me preencher seu cartão.
Shrödinger - Muito obrigado.
Ela começa a preencher o cartão enquanto Shrödinger a observa.
Shrödinger - Trema!
Atendente - Perdão?
Shrödinger - Está perdoada. Agora… é o “ó”, certo?
Atendente - Como assim? O que é o ó?
Shrödinger - O trema é na letra “o”!
Atendente - Ah, sim! Desculpe. É que eu não tinha entendido. Aqui está o bilhete de embarque, Senhor Schro…
Shrödinger - Schrödinger! Escreve-se como se lê.
Atendente - O senhor tem algo a declarar?
Shrödinger - Muitas coisas, mas hoje só o gato que levo nessa caixa.
Atendente - Nessa caixa?
Shrödinger - Exato! Presumo que seja necessário que eu preencha algum tipo de formulário.
Atendente - Sim, mas o senhor terá de usar uma caixa padrão para carregar o seu animal de estimação…
Shrödinger - Não é um animal de estimação. É parte do meu trabalho.
Atendente - Parte do seu trabalho?
Shrödinger - Sim. E não posso transpor esse gato para outra caixa. Inutilizaria a minha experiência.
Atendente - Experiência?
Shrödinger - Perfeitamente.
Atendente (com desconfiança) - Senhor Schrödinger, além do gato, o que mais há nessa caixa?
Shrödinger - Um núcleo radioativo.
Atendente (pasma, mas tentando não transparecer)- Nú-cle-o ra-di-a… O senhor não se importa se eu chamar a segurança pelo rádio, não é?
Shrödinger - De maneira alguma! De minha parte fique tranquila. Me sinto muito seguro com a experiência.
Atendente (ao rádio) - Chefe de Segurança, por favor! Estamos com um zero quarenta e um aqui!
Shrödinger - Ah sim! Há também um martelo ligado ao núcleo radioativo!
Atendente - Seeei..
Shrödinger - Dessa forma ele poderá ser ativado e quebrar a ampôla.
Atendente - Ampôla?
Shrödinger - Sim! A Ampôla! Ah! Esqueci… também tem uma ampôla com gás venenoso na caixa.
Atendente - Gás venenoso?
Shrödinger - Perfeitamente. Para matar o gato, ou não.
Atendente - Sei… um minutinho só.
Atendente (nervosa, ao rádio) - Chefe de Segurança, retificando… A situação agora é um zero quarenta e dois aqui. Favor se apressar.
Shrödinger - Sim! Agora você compreende porque a caixa precisa estar selada, não é mesmo?
Atendente - Compreendo. O Senhor fique calmo por gentileza.
Shrödinger - Percebe-se o meu nervosismo, não é? É que eu tenho um horário a cumprir. Meu vôo é de quanto tempo exatamente?
Atendente - Quarenta à quarenta e cinco minutos. Se o senhor por gentileza esperar um pouco aqui…
Shrödinger - Perfeito! É que, sabe… o átomo radioativo que coloquei na caixa tem 50% de probabilidade de emitir uma partícula alfa a cada hora. Aí, já viu, né?
Atendente (não segurando mais o nervosismo) - O que? O que o senhor quer dizer com isso?
Shrödinger - Aí o martelo cairá e quebrará o envólucro com o gás venenoso!
Atendente (se desesperando) - Ai, Meu Deus! Ai meu bom Jesus.
Shrödinger (ignorando o desespero) - Ou não.
Atendente (surpresa) - Ou não?
Shrödinger - É. São cinquenta porcento de chance! Quer dizer… pelas leis da mecânica quântica, o gato é na verdade apenas uma função de onda resultada da superposição de dois estados. Dentro da caixa há metade de um gato morto e metade de um gato vivo combinados.
Atendente (chorando desesperada) - Quais são suas exigências?
Shrödinger (ignorando as emoções da atendente) - Que não se abra a caixa até a minha chegada em terra firme. No momento não acontece. Se houver um atraso muito significativo no vôo, terei de recorrer à burocracia e requisitar a papelada correspondente ao embarque de cadáveres.
Atendente - Ai, meu menino Jesus! Esse homem é louco!
Entra em cena o chefe de segurança.
Chefe de Segurança - Em que posso ajudar?
Atendente - Esse homem disse que tem um núcleo radiativo na caixa. Ele tá carregando material radiativo!
Shrödinger (orgulhoso) - E um gato!
Atendente - E também uma ampôla com gás venenoso!
Shrödinger - Não se esqueça do martelo! Em uma hora o martelo quebrará a ampôla. Ou não.
Chefe de Segurança - Vai para uma área segura menina, eu cuido disso aqui.
Atendente sai de cena chorando
Chefe de Segurança - O senhor pode me dizer o que está acontecendo aqui? O que o senhor tem nessa caixa e o que o senhor deseja?
Shrödinger - O que está acontecendo é que eu preciso pegar meu vôo em cerca de cinco minutos, o que tem nessa caixa é meu experimento e eu desejo pegar logo o vôo antes que o átomo possa ativar o martelo (ou não).
Chefe de Segurança - Martelo… sei… você é comunista, né?
Shrödinger - Eu sou professor!
Chefe de Segurança (enquanto pula em cima de Shrödinger e tenta imobilizá-lo) - Intelectual de esquerda! Comunista safado! Terrorista fugido!
Shrödinger - Não me mata! Não me mata!
Chefe de Segurança (algemando Shrödinger) - Que matar o quê! Você nem sabe o que é vida! O que é vida? Ficar colocando gato dentro de caixa. Deixa eu abrir essa porra aqui! Aposto que não tem porra nenhuma de átomo ou veneno aqui.
Shrödinger - Não faça isso!
Ele lentamente abre a caixa e olha se interior. Shrödinger se encolhe e fecha os olhos com medo.
Chefe de Segurança - Porra! E não é que tem um gato mesmo aqui?
Shrödinger (abre um dos olhos, surpreso) - Está vivo, né?
Chefe de Segurança (examina melhor) - Não. Tá morto, seu doente!
Shrödinger - Mas o átomo radiativo? O martelo? A ampôla? O gato vivo e morto?
Chefe de Segurança - Que mané átomo radiativo! Tu é doido de pedra. O gato morreu sem ar aqui dentro! E você vem comigo. Vou te levar pro hospício, figura!
Os dois começam a sair de cena. Shrödinger é levado algemado pelo chefe de segurança.
Shrödinger - O senhor não pode fazer isso! Eu sou importante! Eu fui premiado com o Nobel!
Chefe de Segurança - É tipo o Oscar né? Foda-se.
Cai o Pano

