Grinróque?!
O homem de camisa salmão levanta da moto e parte para cima do guitarrista da banda, que dá o primeiro soco. A porrada começa. O grupo da produção que está em volta grita. Os seguranças improvisados vacilam…
…vacilam, não! Não se mexem. Socos. Chutes. A turma do deixa-disso entra em cena segurando os dois e mantendo uma distância saudável. Quando seguram o homem de camisa salmão ele pára como se acalmasse e parte novamente com violência para cima do rapaz. Dois homens e uma mulher o seguram com dificuldade.
Um velho senhor atrás de mim começa a recitar uma ladainha enquanto o guitarrista desce a ladeira. Não me viro para ver onde ele está. Nenhum segurança está mais no local. Saíram de fininho. Caralho! Que merda é essa? Não quero me mexer. Estou passando mal com o calor e ainda ouvindo a ladainha. Assisto a tudo sentado com as pernas esticadas. A minha pressão baixou e a cozinha desse lugar não tem sal para eu colocar embaixo da língua. Só a merda de um tempero pronto que me deixou com um gosto de banheiro químico na boca. Reconheço a ladainha. É uma letra de Raul Seixas. O que eu estou fazendo aqui mesmo?
Segundo o que está anotado no meu bloco, vim para cobrir o Greenrock Festival com Danilo Cheause. Resolvemos que iríamos ontem no final da tarde. Danilo não pôde vir comigo e chegou lá pelas três da tarde com nosso fiel escudeiro Pablo Gouvêa.
Reparei que a coisa toda começou a ficar estranha logo quando eles chegaram. Não que tenham culpa, mas foi nesse momento em que parei de pensar que horas eles chegariam e comecei a prestar mais atenção nas coisas que não estavam acontecendo ao meu redor. Ninguém sabia onde estava o ônibus das bandas, que deveria chegar cerca de meia hora depois de mim. Já haviam passado três horas do horário que previ e nada.
Já eram 16:30h e só agora a primeira banda começava a tocar no Palco 3. Descemos a estrada que levava ao local do evento ao som de um cover de Ultraje a Rigor e dos resmungos de Danilo sobre bandas que tocam covers em festivais.
- Como é que uma banda se apresenta em um festival tocando música dos outros?
- Tipo Cássia Eller no Rock in Rio? - Respondi, provocando.
- Não. Mas aí é diferente. Ela já tinha uma carreira. Esses caras estão começando e começando mal.
Chegando lá a coisa não melhorou. Nesse mesmo dia tocaram umas seis bandas de Juiz de Fora naquele palco e todas tocaram covers. Uma tocou somente covers. Covers por toda parte. As mesmas músicas tocadas por bandas diferentes. Rabisquei uma página de comentários ácidos sobre uma ou outra banda que escalavam suas carreiras por ali e interpelei algumas sobre essa questão dos covers. Ao que parece, eles se rendem ao “esquema” de Juiz de Fora. O povo lá clama por covers. O público, os produtores e as casas querem covers, então as bandas escolhem covers, ensaiam covers e tocam covers. Que círculo vicioso nojento.
Resolvo mudar de ares e vou dar uma olhada nas covers dos LPs expostos na tenda com estandes. Vários estandes vazios. Enquanto isso, a produção discute com a representante de um deles que cisma que precisa de credencial das 40 pessoas que trouxe em um ônibus para trabalharem em sua vendinha de seis metros quadrados. “São todos meus funcionááários!” insiste a moça. Sei…
Da entrada da tenda, vejo o povo chegando na área do camping. Foi o primeiro lugar que visitei desde que descobri que não haveria estadia para mim e para meus comparsas. Lá não havia mais barracas para alugar. Só poderia acampar se comprasse uma barraca por cerca de R$100,00 e pagasse mais R$2,00 de aluguel diário. Olhei para o local do camping enquanto falava com o encarregado e fiquei calculando o declive do local onde estavam as barracas. Aquilo não fazia muito sentido para mim. O camping tinha uns chuveiros e uns banheiros químicos na parte inferior, mas essa inclinação… sei lá…
Aos poucos vou captando rumores aqui e ali. Bandas se reunindo e discutindo sobre a não passagem de som. Músicos procurando pessoas da produção para informação. Só havia um encarregado da produção que parecia saber o que estava acontecendo e não parecia ter poder de melhorar a situação. Andava de um lado para o outro tentando apaziguar a situação. Apelidei-o secretamente de Nice Guy Leo e observei sua trajetória de desculpas e tentativas de mediar a ira crescente das bandas com a produção cada vez mais estressada.
Nice Guy Leo informou que um dos motivos maiores de todos os atrasos era o fato de os geradores de energia terem pifado duas vezes. Danilo, no entanto, esticou suas orelhas no momento certo e captou uma conversa da produção dizendo para segurar o festival o quanto podia, porque o pessoal da rádio ainda não havia chegado para cobrir.
Logo depois de anoitecer Los Djangos terminam de tocar e dão espaço para a banda Mr. Sombra. A banda é anunciada como surf-music, mas não é surf-music. É no máximo música de surfista. Rock com influências de hip-hop e bandas australianas. Entre os covers finais o vocalista solta pérolas como “... melhor do cenário mundial do Brasil!” e para piorar manda essa: “Vamos imaginar que aquela montanha é um pico dropando e que aqui é praia. Tudo aqui é praia!“. No timing perfeito, um mineiro da platéia grita em resposta: “Eu nunca vi o mar!“. E esse foi um dos melhores momentos da noite.
Voltei algumas vezes à Casa de Produção para tentar negociar uma estadia e alguma comida, mas foi inútil. O chefão organizador do evento, Sr. Marco Petrillo me ignorou desde o primeiro momento que passou por mim. Fiz questão de não trocar um “oi” também durante os dois dias. “Quanto menos ele me notar melhor!“, pensei.
E foi mesmo. Graças a minha cada vez maior invisibilidade pude observar a reunião com as forças policiais e os bombeiros e notei que a questão mais preocupante dos oficiais era onde seriam entregues os lanches de quem patrulhava. Descobri também que uma das encarregadas da lona de socorro médico tinha apenas a experiência profissional de operar uma máquina de radiografias, que o socorro não seria 24h e outras coisas pequenas que me fizeram perceber que mais da metade do pessoal da produção não tinha experiência nenhuma em produção e não sabiam exatamente o que estava acontecendo. O que eu estou fazendo aqui, mais uma vez?
Segundo minha credencial sou fotógrafo de uma revista sobre tendências eletrônicas. Tudo uma desculpa para conseguir acesso livre e grátis, confesso. Danilo conseguiu uma pauta muito da suspeita “Uma matéria sobre jovens que abandonam o conforto de seu lar com suas diversões eletrônicas para assistir um festival de rock no meio do mato…” e eu sou seu “fotógrafo” sem câmera, hospedagem ou comida ou dinheiro de pauta. Que se dane! Vou continuar a anotar tudo.
Algumas bandas como Netunos e Baseado em Blues chegaram cerca nove da noite. Encontro com eles ao me dirigir à Casa de Produção para implorar por um chuveiro.
O show dos Netunos estava previsto para as sete, o que me reforçou aquela sensação de que o tempo era mesmo muito relativo e a suspeita que as coisas ainda iriam piorar. E pioraram mesmo. O atraso aumentou em progressão geométrica. Não havia diretor de palco no Palco 3 e simplesmente as bandas tocavam quanto tempo queriam. Várias bandas não tocaram e não aceitaram a proposta de Marco Petrillo de tocarem no dia seguinte. Boi de Gerião veio de Brasília e ao perceberem que não iriam tocar, voltaram para casa nem um pouco contentes.
Aliás, “voltar”, já parecia uma realidade distante, pois não havia condução disponível para as bandas nem para o hotel em Leopoldina (a cidade mais próxima). Até isso teve de ser barganhado entre as bandas e a produção do evento. (Nota: sugiro que leiam o relato de Carlos Alexandre, dos Netunos no blog da banda para mais informações sobre isso.)
Um dos momentos antológicos em meio ao caos foi da banda que acompanhava Serguei. A produção resolva tirá-los do palco no momento em que Serguei voltava para cantar Satisfaction. Primeiro percebeu que subira no palco ao lado. Completamente perdido, quando voltou ao palco certo constatou que sua banda de apoio não lá estava mais.
Nesse momento não consegui mais encontrar Danilo e Pablo. Danilo estava completamente chapado, mas segundo ele, completamente ciente e Pablo já estava muito bem acompanhado de uma morena de Juiz de Fora. Tive uma ligeira sensação ruim sobre aquilo também.
Baseado em Blues estava marcado para meia-noite e vinte e só começou a tocar quando o dia estava amanhecendo! Na quarta música, o som falhou duas vezes e devidamente putos da vida eles param de tocar e vão embora xingando com razão a produção.
Já era sábado de manhã e eu não havia dormido mais do que três horas de quinta para sexta. “Danilo e Pablo estão desaparecidos há mais de quatro horas e só há meia hora atrás descobri que estão em algum hotel há 40 minutos daqui. Antes disso, vasculhei todo o local do evento trocentas vezes, invadi o camping, irritei pessoas com perguntas e praguejei aos céus a cada ladeira.”
Como eu descobri onde estavam? Depois de descobrir onde eles não estavam, que era em qualquer lugar ali, suspeitei que pudessem ter pegado carona no ônibus que levaram as bandas do Rio para um hotel.
Não havia ninguém na Casa de Produção e ela estava trancada. Peguei “emprestado” o telefone sem fio da produção por uma janela displicentemente aberta e ligando para todos os hotéis das cidades vizinhas. Em um hotel em Leopoldina consegui as informações de que as bandas estavam por ali. Depois consegui falar com Cid, baterista dos Netunos que confirmou minhas suspeitas. Eles conseguiram se enfiar no ônibus das bandas do Rio de Janeiro e dormiram em uma cama de verdade, com ar condicionado de verdade e tomaram banho de verdade. A verdade deles soa bem melhor que a minha.
Bem… agora recapitulando de onde parei: aA porrada começou com uma discussão, é claro. Ao que parece, o cara de camisa salmão. Um homem de uns quarenta anos, encorpado e de traços fortes parecia ter uma função do tipo coordenador de segurança. Desfilava pelos locais do evento com uma pequena moto Scooter e naquele momento estava ali parado conversando com uma mulher da produção sobre a mudança do esquema de segurança da entrada (eu só consegui presenciar quatro formas operacionais distintas cada vez que passava por lá. Talvez finalmente chegariam a um acordo sobre o que o público precisaria fazer para entrar. Mostrar identidade? Abrir as bolsas? Gritar “Griinróóóque!“?
De repente sobem dois garotos de uns vinte anos. O com cabelos estilosos com dreads espalhados em sua testa branca começa o diálogo enquanto o outro o apóia. Pelo que pude entender, o homem da scooter havia sido grosseiro e agressivo com a namorada do rapaz, ao arrancar a credencial de apoio que ela carregava em seu pescoço. Os argumentos do homem eram de que ela respondeu que não estava fazendo nada ali, apesar da credencial de “Apoio” e que aquilo não era lugar para levar uma menina de 14 anos. Os argumentos do guitarrista eram de que a mãe não apreciava muito o som produzido pela banda e que a atitude “de animal” desse senhor havia deixado a garota chorando no ônibus, sem poder entrar no evento.
A discussão se acalorou, o garoto tocou no peito do homem, quando ele virou o rosto em desdém, a testosterona subiu e o resto vocês leram no começo do texto.
E eu aqui sentado com as pernas estiradas nesse calor dos infernos. Aqui também, fui capaz de descobrir que o homem de camisa salmão que sobe as escadas da casa sem um pingo de preocupação estampada no rosto é simplesmente um dos donos da cocada-preta. Isso explica a reação de quem conhecia o sujeito.
Às quatro horas da tarde meus colegas ressurgiram e decidimos depois de um cachimbo que iríamos embora naquele momento. Raimundos passavam o som lá embaixo e eu já com a sensação de missão cumprida. Não havia um horário decente para se sair de Palma. A solução foi através de uma carona até Laranjal no ônibus que trouxe os Raimundos e de lá algumas escalas até o Rio.
Tentei cochilar na volta pra casa enquanto Danilo, ainda sob efeitos, nos incitava para ir para a Loud!. Louco! Cheguei até cogitar a idéia! Não dava. Estava cansadíssimo. Enquanto procurava inutilmente uma posição confortável para dormir, não parava de lembrar da posição da produção sobre o primeiro dia “houveram muitos erros, mas tem de se entender que é o primeiro dia de festival e é a primeira edição do festival.”
Sinceramente? Não cola! O site prometeu diversas coisas que não haviam no evento. Não vi a tal da ambulância presente, não vi nenhuma programação de passeios ecológicos, a limpeza do local deixou muito a desejar (principalmente por ser um festival apoiado por uma ONG ambientalista!), as ilustrações feitas por computação gráfica para demonstrar o que seria o local do evento são irreais e mostram qualquer lugar menos a fazenda onde o festival. O camping em declive alagou depois de uma chuva no segundo dia. Isso logo após de acabar a água nos chuveiros do local. De imundos, passaram para imundos com roupas encharcadas… os erros não param! O que foi realmente positivo nesse evento? A iniciativa teórica. Isso e o fato de que amanhã ainda era domingo e eu vou estar longe do maldito lugar.






