Blues - Um resumo histórico
Blues
Um resumo histórico cru e especulações sobre o seu paradeiro atual.
O grito melodioso se transforma em uma canção ouvida ao longe, uma pergunta jogada aos ventos, ouve-se o baque do machado, da enxada ou do martelo marcando o ritmo e uma multidão de vozes surge por todos os lados, respondendo em uníssono com mais um grito. A operação se repete com uma nova pergunta, a mesma batida e uma nova resposta. Essas eram as canções de trabalho dos escravos nos Estados Unidos e
em pouco tempo, no meio do branco das plantações de algodão dos estados do sul, uma outra semente foi plantada. Regada com suor e sangue, ungida pela fé religiosa imposta e ansiada por todos que desejavam qualquer sentido de liberdade que não fosse a morte pelo trabalho.
Há mais de cem anos, um novo gênero musical começava a germinar no sul dos Estados Unidos da América. Adaptando-se às novas condições de sobrevivência e ao novo solo, o blues nasceu, não apenas como uma arte, mas também como uma forma de expressão necessária, uma fuga da rotina cruel e desesperançosa trazida pelos trabalhos pesados no campo, uma nova roupagem para a tradição oral do registro histórico e cotidiano de uma raça. Sofrimento, prazer, alegria, tristeza, fome, fé, pobreza, fartura, revolta e esperança: o blues canalizava todos os sentimentos humanos mais básicos e primordiais. As canções exprimiam os sentimentos do músico e reverberavam de sua platéia, que se identificava automaticamente com algo nascido, criado e apresentado de igual para igual. O século XX mal acabara de começar e o blues se espalhava pelo Delta do Mississippi e, em seguida, por qualquer parte do país onde houvesse uma comunidade negra.
É impossível imaginar a música contemporânea sem o blues. Se as canções de trabalho dos negros (field hollers, chants ou shouts) foram a semente e os cantos religiosos (spirituals), junto com as influências musicais européias foram parte do adubo, o blues é, sem dúvida, alguma a raiz de toda a música ocidental. Se seguirmos a mesma analogia, teremos ainda: jazz, ragtime, rock’n'roll, R&B e outros gêneros formando os galhos principais, de onde novos galhos como o swing, o soul e o funk cresceram e geraram frutos como: acid-jazz, o bebop, o indie rock, o heavy metal, lounge music etc. Cem anos depois, a árvore continua viva e dando frutos, mesmo sem a notável abundância de outrora.
Agonizando
A noção individual de tempo é relativa e um século pode não parecer tanto tempo se lembrarmos que ainda existem por aí, espalhados pelo mundo, mulheres e homens lúcidos com mais de cem anos. São pessoas que já haviam atingido a maioridade quando os primeiros blues foram gravados. Ao mesmo tempo, a história da humanidade passou por tantas mudanças tecnológicas, políticas, artísticas e sociais que hoje o papel do blues é motivo de discussões e dúvidas diversas.
O típico ouvinte habitual de blues hoje é uma minoria formada de puristas elitizados, um punhado de músicos, seletos amantes de música e descendentes diretos da platéia que assistiu os primeiros artistas de blues forjarem o gênero. Esses grupos não constituem parte significativa de mercado para a indústria musical e, mesmo assim, o blues nunca deixou de estar presente na vida de quase todos nós, basta ligar a televisão ou o rádio. Nas cidades do mundo inteiro, pode-se ouvir o blues em propagandas de TV, como música de fundo nos filmes e, é claro, diluído na música popular.
Uma série de razões, conseqüentes das mudanças dos tempos, relegou o blues a um papel muito similar ao do idoso na nossa sociedade. Sua utilidade hoje é questionável, suas idéias não condizem mais com a realidade atual e sobrevive abandonado na maior parte do tempo. Se, durante sua história, o blues foi rotulado erroneamente por leigos como um gênero triste em sua totalidade, hoje os mesmos tornaram essa afirmação uma verdade absoluta. O blues parece fadado a agonizar eternamente, mas esse é apenas um dos pontos de vista, apenas um ângulo da questão sobre seu papel em um contexto de mudanças musicais e sociais.
A Onipresença
Dentre várias características notáveis dos artistas de blues, a improvisação sobre um tema musical ou canção é, sem dúvida, a mais marcante. Cada bluesman cria e recria livremente todas as suas canções a cada apresentação, a cada performance. É uma parte importante de sua condição como músico de blues transformar cada canção à sua maneira, sendo ela de sua autoria ou não. Talvez por essa razão, ao contrário dos outros gêneros musicais, o blues raramente reconhece o significado do plágio. É natural que um artista se apodere de um trecho de uma canção de um terceiro, desenvolva um novo tema ou arranjo a partir dela e batize da forma que quiser como uma canção sua. Práticas similares, porém em níveis diferentes, podem ser vistas hoje com a música eletrônica.
Graças a essa transformação constante em suas canções, surgiram outros gêneros musicais. O rock’n'roll, em seu início (rockabilly), não era mais do que um blues com batida acelerada e influências do country. Da mesma forma, o R&B e o jazz foram criados. Uma transformação incessante que evoca a idéia de que o blues sempre esteve presente e que, na verdade, toda música que ouvimos hoje, desde bossa-nova à N’SYNC, não são subprodutos do blues, e sim apenas outras formas e outros rótulos do blues em si.
Além da diversão promovida em suas apresentações, os artistas de blues, em sua maioria, também exerciam uma forma de entretenimento social extremamente similar a dos menestréis medievais. Através de suas canções, contavam histórias que variavam entre temas cotidianos e canções de cunho político. Essa característica também foi herdada diretamente dos bardos africanos (os griots ou jalis). Ignorando o purismo alimentado pelas performances cristalizadas no vinil ou acetato, essa forma de comunicação se transformou em sintonia com o tempo. Novas questões sociais, novas políticas, novos pensamentos, novos problemas e nova música. Se no passado o cantor negro se utilizava de um violão, guitarra ou piano para dar voz aos protestos do povo, hoje ele empunha um microfone e vocifera suas verdades com batidas e efeitos eletrônicos ao fundo. A melancolia dá lugar à revolta e o blues ganha uma série de outros nomes.
Obviamente, essa linha de pensamento similar à crença religiosa de que Deus está em todas as partes nos traria alguns problemas. Mesmo provindo de um raciocínio lógico, filosofar a respeito disso é o suficiente para gerar muitos protestos entre os admiradores e provocar, em puristas, surtos psicóticos seguidos por tentativas de cortar os próprios pulsos com suas agulhas de vitrola. No entanto, qualquer ataque a essa visão polêmica esbarraria ou cairia bem em cima de outra (e muito mais pertinente) questão: o rótulo. O que pode ser rotulado como blues e o que não pode? E qual é o impacto real desses rótulos?
Rótulos
“All music is folk music. I ain’t never heard a horse sing a song.” - Big Bill Broonzy
A partir do século XIX, cunhou-se no popular o termo folk music (música folclórica, ou música do povo, numa tradução mais literal), para diferenciar a música popular das valsas (ou outros gêneros europeus), das marchas militares e das canções religiosas. Ao mesmo tempo, o músico popular não se restringia a qualquer tipo de gênero, tocando valsas, polcas, spirituals, variações de marchas militares e quase tudo que seu público quisesse ouvir. Qualquer outra coisa que não se encaixasse nesses gêneros formaria o que se conhecia como “folk”, um rótulo para designar qualquer outro tipo de gênero musical e não um gênero em si.
Com o advento da indústria fonográfica nos Estados Unidos, no começo dos anos 20, surgiu a necessidade comercial de distinguir ainda mais os gêneros populares. Não existia uma diferença clara entre blues ou country, além do sotaque e da cor da pele do artista. Em um ambiente racista, onde tanto brancos como negros eram consumidores de discos, a indústria também segregou a música, dividindo-a entre hillbilly (influenciada em certo grau pelas baladas do norte europeu), para o público branco, e race songs (ou black music), para o público negro. A idéia deu tão certo que, logo depois, novos movimentos comerciais dividiram ainda mais os gêneros. Do hillbilly “nasceu” o country e as race songs geraram o blues.
No balaio da música folk, canções com a palavra “blues” no seu título certamente existiam há tempos e podemos especular que uma delas tenha se tornado popular o suficiente para que artistas aproveitassem sua estrutura para criar canções semelhantes, criando assim uma identidade de estilo e, conseqüentemente, criando esse gênero musical. É curioso notar, entretanto, que até hoje ainda se batizam canções de outros gêneros musicais com a palavra “blues” (em referência ao sentimento e não ao estilo de música), criando uma confusão compreensível entre ouvintes leigos.
Um novo exame de paternidade
Artistas negros cantando blues ou spirituals geravam mais dinheiro. Eram os nichos mais lucrativos das gravadoras e selos fonográficos. Nada mais natural do que tentar vender aquilo que gera mais lucro. Simples assim. Durante anos, a indústria gerou um ciclo vicioso que consistia em gravar artistas negros tocando, se possível, apenas blues, que mais tarde influenciariam novos artistas a tocar e também gravar, se possível, blues. Poucos fãs de blues sabem, por exemplo, que Robert Johnson, um maior ícones do blues rural, possuía um repertório que incluía polcas. Das suas vinte e nove canções gravadas, apenas dois números de ragtime conseguiram escapar desse crivo.
Toda idéia romântica de um bluesman solitário e torturado pelos seus fantasmas, utilizando o blues como forma de expressão e redenção vai por água abaixo, se levarmos em conta esse dado que foi e ainda persiste em ser evitado para a alegria dos puristas e a melancolia saudosista de uma época, em que a música “não era comercial ou controlada pelas gravadoras e a mídia”. Independente do que gostaríamos de pensar ou não, de certa forma, o blues como conhecemos hoje é também criação do homem branco, graças a uma das primeiras fórmulas comerciais da indústria fonográfica que, como em qualquer negócio, visa ao lucro.
O princípio básico dessa fórmula ainda persiste até hoje: encontrar um gênero musical popular, cristalizá-lo dentro de uma estrutura simples, saturá-lo ao máximo (com canções e artistas dentro do molde), até que os lucros caiam. Logo em seguida, repetir a operação. Em pouco tempo a mídia se integraria na equação com o surgimento da televisão e ainda, com a ajuda do racismo, tornando mais do que aceitável artistas brancos pré-fabricados interpretarem versões mais conservadoras da música negra. Pat Boone ficou famoso por levar a música de Little Richard devidamente pasteurizada para a juventude branca norte-americana.
No começo dos anos 40, o blues já se estabelecia no norte do país e passava por grandes e rápidas transformações. Agora seus temas eram urbanos e acompanhavam o êxodo rural do sul para o norte do país, seus instrumentos eram eletrificados e o artista invariavelmente era acompanhado por bandas de três ou mais integrantes. Toda essa adaptação, no entanto, não foi o bastante para torná-lo um gênero de consumo para a massa. O negro continuava segregado e sua música também continuaria, pelos próximos dez anos, até o rock’n'roll finalmente surgir - dentro, é claro, de uma embalagem muito mais comercial.
“Look at my sales, let’s do the math, If I was black, I would’ve sold half.” - Eminem, em White American
As coisas mudam, mas permanecem bem parecidas mesmo quando ao contrário.

