Relato do meu segundo dia en New Orleans
11/18/04
Chove fino lá fora, mas poderia ser qualquer coisa na verdade. Qualquer coisinha já é suficiente para abalar meu espírito empreendedor nesses dias. Estou aqui ao lado de um Italiano, na sala de refeições do albergue. O nome dele é Stéfano e no momento, assim como eu, ele está escrevendo algo.
Stéfano está viajando o mundo sem se utilizar de serviços de transporte aéreo e conta tudo o que acontece em uma homepage que esqueci o endereço. Mais tarde procuro e passo para vocês.
Minha barriga começou a doer novamente e parece que tudo que como me faz um pouco mal. Ainda não sei o porquê disso acontecer, mas meu metabolismo está bem acelerado nesses dias. Tudo o que bebo ou como, vai para o banheiro em cinco minutos. Ontem a noite, no Funky Pirate, fui no banheiro todas as vezes que tomava um drinque. Começo a ficar com vergonha de voltar lá.
Acho que o staff já reparou nas minhas incursões. Se fosse no Brasil, além de mijar toda hora, cagaria para o que o povo do bar pensa. Mas não estou em casa e tampouco no Kansas. Por mais que eu não goste, ainda não sei as regras ou o peso das coisas por aqui.
Estou enrolando um pouco aqui, mas vou parar com esses relatos bestas e vou dizer o que realmente aconteceu de interessante ontem.
Eu estava na área comum do albergue quando engajei uma conversa com um novaiorquino que me pediu para que eu tocasse algo na gaita para ele. Depois de tocar, ele disse que poderia ganhar meu almoço tocando nas ruas.
Agradeci o elogio e a dica, mas não sabendo o quanto daquilo poderia ser verdade, decidi levar as gaitas comigo ao French Quarter (onde rola o bafafá), só por desencargo de consciência.
Começava a me sentir menos mal do estômago e então fui andar um pouco no FQ com a minha mochilinha e tals… a idéia de tocar nas ruas não é tão ruim se eu tivesse um bom violonista e vocalista ao meu lado. Não posso pensar nisso logo de cara também. Primeiro designer gráfico, depois bares. Se ‘bares’ não der certo, rua!
Confesso que está sendo muito difícil para mim entrar em lugares e pedir emprego. Vários lugares que eu vejo por aqui são restaurantes que eu provavelmente me sentiria intimidado como freguês.
Nesse dia só preenchi uma ficha num barzinho modesto que realmente não precisava de mais funcionários. Bem… É um começo.

Mais tarde, no Funky Pirate (esse barzinho amarelo aí na foto), pedi para que St. Louis Slim me ouvisse tocar e que criticasse minhas habilidades para saber se eu poderia tocar nas ruas. Ali mesmo no bar, toquei Blowin”n’Jumpin’ e ele disse algo como:
- Tá… legal… maas você pode tocar uma lenta?
E eu toquei. Ele disse:
- Ceeeerto… você gostaria de tocar uma ou duas músicas comigo hoje? Seria um bom teste final.
- Claro! Seria Ótimo! Deixa eu só beber mais um pouco, ok?
Quase no final do show, ele me chamou e eu subi para tocar. Tocamos uma e ele gostou, então fiquei para outra. Aí, mais acostumado pude me soltar mais na base e ele gostou bastante. Me abriu um sorriso e disse:
- Muito bom, cara. Toca mais uma?
- Ca-la-ro.
Toquei ao todo quatro músicas com ele e encerramos com ‘World Gone Wrong’ (não em lembro de quem é, mas o Bob Dylan fez uma versão disso num disco de mesmo nome).
O bar estava bem vazio, mas não importa. Foi minha estréia na Bourbon Street e logo no segundo dia. Nada mal, acho.
Agora só me falta um emprego.
Segundos de Sabedoria: Americano não sabe fazer pão, mas mesmo assim vende bisnaga de pão francês na maior cara de pau. Já dá pra suspeitar pelo fato de não existir padarias aqui. Ora! Se não tem padaria, onde posso comprar um bom pão? Resposta: Não posso.
Link do dia: Barshots New Orleans

